Maria Clara Machado (1921 - 2001). Autora, diretora, professora e atriz. No começo da década de 1940, dedica-se ao teatro de bonecos, base de seu aprendizado teatral.
Entre o fim de 1949 e início de 1950, recebe uma bolsa do governo francês e frequenta, em Paris, cursos de formação de ator na Education Par les Jeux Dramatiques (E.P.J.D.), do ator francês Jean-Louis Barrault (1910 - 1994). Em 1951, funda o grupo de teatro amador “O Tablado”, com amigos e intelectuais que se reúnem na casa de seu pai, o escritor Aníbal Machado (1894 - 1964). Em 1956, inicia a publicação dos Cadernos de Teatro. Cria o curso regular de teatro do Tablado em 1964 e o coordena até 1999. Ensina improvisação no Conservatório Nacional de Teatro (atual Escola de Teatro da Unirio), de 1959 a 1974, e é diretora da escola em 1967.
Escreve 27 peças para o público infantil e cinco para adultos, entre 1953 e 2000. Entre elas: O Boi e o Burro a Caminho de Belém, 1953; Pluft o Fantasminha, 1955; A Bruxinha que Era Boa, 1958; O Cavalinho Azul, 1960; Maroquinhas Fru-Fru, 1961; A Menina e o Vento, 1963; Tribobó City, 1971; O Dragão Verde, 1984; Jonas e a Baleia, 2000, sua última obra, escrita em parceria com Cacá Mourthé (1959), sua sobrinha. Nos anos 1960 e início de 1970, revela-se como autora de peças para o teatro adulto.
A obra teatral de Maria Clara Machado está intimamente ligada à trajetória de “O Tablado”. Para o grupo amador, fundado em 1951, a autora desenvolve uma dramaturgia própria e pioneira, que revela sua importante contribuição na série de transformações e inovações introduzidas no teatro para crianças, a partir de 1950, em consonância com as mudanças por que passa a atividade teatral no Brasil.
Segundo a pesquisadora Claudia de Arruda Campos, com o sucesso, em 1948, de O Casaco Encantado, de Lucia Benedetti (1914 - 1998), medidas oficiais de incentivo ao teatro para crianças são propostas, inserindo essa área no processo de modernização cultural que está em curso no país. Em 1952 é instituído o Concurso Anual de Peças Infantis da Prefeitura do Distrito Federal, destinado a premiar anualmente as três melhores peças inéditas.
Em 1953, Maria Clara ganha o 1º prêmio pela autoria de sua segunda peça, O Rapto das Cebolinhas, história que conta o roubo das cebolinhas mágicas da horta do coronel Felício, misto de agricultor e cientista distraído. A peça destaca-se pelo domínio da construção dramática, temática contemporânea próxima do cotidiano, simplicidade e eficiência da linguagem.
Para a pesquisadora Maria Helena Kühner (1933), "toda vez que se fala em teatro infantil brasileiro, surge necessariamente, como marco, um antes e depois de Maria Clara Machado e O Tablado". Maria Helena define a obra teatral da autora como uma "uma guinada da maior importância", caracterizada não só por suas inovações formais, mas por definir a criança "a partir dela mesma, de sua experiência, sua psicologia, sua linguagem. Representa não mais acatar passivamente valores instituídos ou estabelecidos, relações verticais de 'autoridade' e 'respeito', noções prefixadas sobre toda e qualquer coisa - até sobre o bem e o mal". Nas palavras do crítico de teatro Décio de Almeida Prado (1917 - 2000): "Maria Clara não diz, não descreve teoricamente como são as crianças; faz uma coisa mais difícil: mostra-as em ação diante dos nossos olhos, como uma realidade que é poética por ser tão depurada, tão simples e verdadeira".
O texto de Maria Clara Machado é pensado em função da cena, do espetáculo que dele resulta, ressalta Claudia Campos. É um teatro sem pretensões literárias que busca assumidamente o caminho dos sentidos. Não é um "teatro-texto", mas ao incluir "em seu arsenal os recursos da palavra, um 'teatro-espetáculo', o que, entre outras coisas, quer dizer que a leitura da peça infantil precisa, necessariamente, dar grande peso às rubricas e, mais, ir além das rubricas, brincando um pouco com as possibilidades cênicas de cada recurso". Nesse sentido, o teatro-espetáculo pode utilizar, de maneira controlada ou desmedida, um conjunto equilibrado de efeitos articulados à palavra, e até mesmo dispensá-la ou substituí-la por algum recurso de cena equivalente.
Pluft, o Fantasminha recebe os prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Teatro (APCT) de melhor autor e melhor espetáculo, em 1956. No mesmo ano obtém o Prêmio Saci de teatro, do jornal O Estado de S. Paulo. O texto, baseado em uma pequena intriga policialesca, conta com humor lírico e muita magia, a amizade que surge entre uma menina e um fantasma. O tema construído durante a narrativa é a possibilidade de se vencer o medo. Décio de Almeida Prado observa que os jogos de cena, habitualmente trabalhados na direção, aparecem incorporados ao texto e conclui ser impossível saber até onde vai a autora e onde começa a encenadora.
Ao iniciar o curso regular de teatro de O Tablado, em 1964, Maria Clara procurar dar ênfase à prática teatral. Suas aulas são dinâmicas e por vezes ritmadas com a marcação de um tambor. Trabalha gestual, mímica e realiza exercícios dramáticos com os atores preparando-os para expressar sentimentos e emoções. Nos espetáculos de fim de ano, o aluno entra em contato direto com o público, vive a emoção de uma estreia e se envolve na elaboração de cenários, figurinos, sonoplastia, luz etc. O cuidado na formação dos atores tabladianos permite a criação de uma linguagem cênica que privilegia a dicção, a limpeza de movimentos em cena, a composição de personagens e o bom acabamento das produções.
Para Maria Clara, o fundamental é que o ator aprenda a ter consciência de trabalho de equipe e a noção do espetáculo como um todo. Suas montagens, além de ágeis, movimentadas e coloridas, possuem acabamento impecável. Carlos Drummond de Andrade constata: "Clara revelou-se autora e diretora da mais alta qualidade estética: a imaginação".
(Texto extraído do site: http://www.itaucultural.org.br)


















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